sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A Festa das Águas



Comunidade liderada por Pai Manoel Xoroquê


ALODÊ, ODO YÁ, ODÔFIABA” ; “ORA YÊ YÊU”! Foram as saudações ouvidas por mim e muitas outras pessoas que foram prestigiar a Festa das Águas promovida pelas comunidades afro-religiosas alagoanas no último dia 8 de Dezembro na praia de Pajuçara. Pude sentir o quanto ainda é forte a tradição yorubá em nossas terras alagoanas. Apesar da resistência e da intolerância religiosa os adeptos do candomblé não se intimidam nem retrocedem, pelo contrário, a cada dia tem mais pessoas na luta contra o preconceito e a discriminação religiosa, gente que veste a camisa da fé afro e sai em marcha para dizer que também é cidadão e também tem direitos e entre esses direitos o de expressar a sua fé.


A festa teve início às 7:00 horas quando começava chegar algumas comunidades para dá início ao ritual do Toque de Santo e em seguida prosseguir com a entrega das oferendas em pleno mar. A programação estava marcada para ir até as 18:00 horas encerrando com o show da cantora popular Lecy Brandão. Alguns grupos culturais da cidade fizeram apresentações e puderam demonstrar mais uma vez toda força e ancestralidade das raízes africanas em nossas terras. Eu fiquei maravilhada com o Afoxé da comunidade afro-religiosa comandada por Pai Célio em Ponta da terra, me emocionei muito mesmo, sem falar na energia que irradiava o lugar, foi tudo muito bonito! Pude confirmar a força de zumbi presente na manifestação do grupo de capoeira e do maculelê. 






Ainda bem que em nossa terra o candomblé ainda pode se manifestar de maneira autêntica e cheia de força, pois segundo a cantora Lecy, no Rio de Janeiro não está sendo mais assim, a cantora disse que as passagens de ano novo lá no Rio eram realizadas com comunidades afro-religiosas na praia agradecendo a Iemanjá as dádivas do ano que estava terminando e pedindo ainda bênçãos para o ano que começava, “agora não é mais assim”, disse ela, “agora é aquela coisa que vocês vêem na televisão e só”, prosseguiu dizendo, depois, cantou uma linda canção para Rainha do mar.

Este ano a secretaria de defesa da mulher esteve apoiando a manifestação junto com a secretaria de cultura, mas o que mudou e  que representou uma certa afronta para as comunidades foi a determinação da prefeitura de delimitar onde poderia começar e terminar as manifestações na praia. Muitas pessoas não concordaram com esta decisão alegando o direito de ir e vir principalmente em locais públicos e diziam ser mais uma vez vítima da discriminação religiosa. Por esta razão, algumas estátuas que se vestiam com indumentárias afro representando assim os membros das comunidades afro-religiosas estavam com suas bocas tapadas por uma fita adesiva para demonstrar toda indignação sentida pela discriminação do negro e pela intolerância religiosa vivenciada diariamente por estas pessoas.

É uma afronta mesmo determinar como uma pessoa deve crer, para não dizer que é uma violência ao ser e a própria espiritualidade. O preconceito, a discriminação e a intolerância são frutos da ignorância das massas que se quer conhecem suas raízes. Vou contar uma coisa, sou filha adotiva de um pai mulato e de uma mãe negra, meu pai é nativo da terra de Zumbi mas infelizmente algumas de suas falas reproduzem o preconceito religioso e racial. Ele é um bom homem, um bom esposo e um ótimo pai de família, mas não aceita com naturalidade suas raízes, ele reproduz o que passou a infância toda escutando que “negro é coisa que não presta”, vê se pode!! Eu sempre discuto com meus pais sobre esses temas, mas não vou expor aqui os avanços que tenho obtido em nossas conversas, isso fica pra um outro post tá?! Eu decidi fazer esse comentário, só pra afirmar que o preconceito é real e que é fruto da ignorância mesmo, da falta de conhecimento da própria história. Oh, meu Deus, oxalá que todos os educadores do nosso Brasil se comprometessem de verdade com a LEI Nº. 10.639/03 que determina o ensino da cultura afro e da cultua afro-brasileira nas escolas (muito embora, um número significantes de colegas precisam deixar o censo comum e estudar e conhecer sobre a religião de matriz africana para então se comprometer com a lei e efetivar a mesma), as pessoas só precisam conhecer suas raízes não há como negar nossas raízes nem nossa história.

Em virtude dessa constante intolerância os organizadores do show decidiram que após a apresentação da cantora Lecy, sairiam junto com o público presente em marcha pelas ruas para protestar contra essa falta de respeito. Eu percebi que nem todo mundo que estava presente resolveu ir, e o número ficou resumido, eu quase fiquei frustrada quando percebi, mas é aquela coisa de alguns brasileiros que querem ter seu direito garantido mas não querem ir pra luta, até quando será que nós ficaremos apenas olhando o nosso direito ser negado? Zumbi fez tanto por nós, deixou um exemplo tão grandioso de força e coragem e o que nós estamos fazendo com isso? Bom fica a questão para que possamos pensar em nossas ações diárias. Mas, apesar dessas situações, o bom mesmo foi poder ver quanta gente em nossa terra que se assume enquanto candomblecista e não tem medo nem vergonha de ser o que é, as pessoas aparentavam estarem muito felizes e bem dispostas para mostrar publicamente uma fé tão cheia de beleza e rica de significados e de história. Os barcos prosseguiam em marcha rumo ao alto mar para depositar as oferendas a Mãe das águas salgadas e a Mãe das águas doces, alguns receberam seus orixás em plena areia da praia reafirmando a força e a magia do candomblé.



A FÉ E A QUESTÃO AMBIENTAL

Depois da Festa das Águas, quando cheguei em casa e fui descarregar da máquina para o computador as fotos que tinha feito da festa, algo me chamou a atenção tão fortemente que comentei com Marcone, meu companheiro. As pessoas estavam depositando nas águas do mar plásticos, vidros, papel entre outros objetos. Nossa! eu ainda não havia pensado no quanto isso é nocivo para vida no mar. Vi recentemente uma reportagem de uma tartaruga marinha que depois de morta os biólogos encontraram em seu interior um pedaço de sacola plástica que a tartaruga deve ter comido provavelmente por achar que seria algum tipo de alga, outra vez vi também em um telejornal uma tartaruga marinha atrofiada, ela havia entrado dentro de um anel de plástico, desses que vedam as tampas de alguns produtos envasados que compramos. O anel havia se alojado no meio do seu corpo provocando uma falsa cintura no animal, o casco da pequena tartaruga já tinha uma fenda que era a marca do tal anel de plástico que comprimia o corpo do animal e amassava seus órgãos internos. Gente, quando eu vi essa matéria eu decidi que iria ter mais responsabilidade com o meio ambiente, pois não é justo outros seres vivos padecerem por conta da minha falta de responsabilidade e de higiene. Tem muito lixo no mar, e o pior é que nós o estamos deixando cada vez mais nocivo para seus habitantes. E nós não temos esse direito!

Pode ser que as comunidades afro-religiosas aqui de Alagoas ainda não tenham atentado para este fato tão importante, pois esta situação não afeta ninguém diretamente, de maneira que não dá pra sentir na pele (ainda) o impacto ambiental causado pelos objetos lançados ao mar como oferta para Iemanjá.
O que está acontecendo é que nós que acreditamos nas forças da natureza que são os Orixás como emanações Divina, não estamos respeitando os limites nem a vida que a própria Mãe natureza proporciona. Peço permissão para dizer que eu não acredito que Iemanjá queira uma devoção irresponsável e nenhum outro Orixá também. As águas de Mãe Iemanjá devem permanecer sadias e próprias para o sustento e permanência da vida dos seres que habitam nela favorecendo a harmonia no ciclo da natureza e a vida do próprio homem. Não quero dizer com isso que as oferendas não devam ser realizadas, entendo que a oferenda é um importante elemento para materialização da fé, mas com toda humildade que me é emprestada por Pai Oxalá, gostaria de sugerir que as oferendas fossem realizadas de maneira mais consciente e sustentável possível. Se amamos o Orixá também amamos a natureza e toda força e axé que dela provém, por isso é de nossa inteira responsabilidade manter o equilíbrio natural das coisas, fazer o possível para não quebrá-lo.
Não é só fazer a oferenda para o Orixá, é preciso ir um pouco mais além, é necessário o respeitar de maneira reverente, procurando conhecer o que de verdade o agride e oprime. É um paradoxo  ser filho de Iemanjá e não respeitar suas águas...
Não quero contudo, que meus irmãos e irmãs, principalmente os já anciãos na fé, sintam-se afrontados por mim, mas entendam que é o zelo pela vida que me consome.
No caminho espiritual e na existência como um todo, penso que nos tornamos mais fortes e mais firmes quando entendemos, absorvemos e respeitamos certos parâmetros da Mãe Natureza.  Axé!